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Bicicletas: mais viáveis e democráticas - Entrevista com André Geraldo Soares

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fdsfasfafA cidade de Florianópolis realizou audiências públicas com distritos e segmentos da sociedade civil organizada sobre oito blocos temáticos para compor o Plano Diretor Participativo, que está em fase de elaboração do texto final. Um destes blocos foi a Mobilidade, na qual se debateu sobre sistema de transporte público, infraestrutura viária, sistema cicloviário, pedestres e sistema de mobilidade. Nesta entrevista, o sociólogo e educador André Geraldo Soares, Diretor Administrativo da ViaCiclo - Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis e Secretário Executivo da UCB - União de Ciclistas do Brasil, fala sobre o resultado da audiência e sobre a utilização das bicicletas na capital Catarinense.


Perkons - Durante as reuniões do Plano Diretor Participativo, o que a população de Florianópolis propôs para mobilidade urbana?
André Soares - Os moradores das comunidades elaboraram 321 propostas na área temática da Mobilidade Urbana, sendo que 73 delas mencionam a mobilidade ciclística; 21 recomendam restrição ao uso do automóvel particular e apenas 19 delas solicitam infraestruturas como duplicação de vias, viadutos e estacionamentos. Quase todas as propostas restantes abordam o transporte coletivo, o deslocamento de pedestres e a acessibilidade para portadores de deficiência. Em outros processos participativos, em pesquisas e no dia-a-dia do nosso trabalho transparece com nitidez a enorme demanda reprimida do uso da bicicleta: muitas pessoas gostariam de pedalar, mas não o fazem por falta de segurança.

Perkons - O que os moradores mais reivindicam quanto ao uso das bicicletas?

André Soares - As reivindicações são simples e óbvias: vias próprias para a bicicleta, compartilhamento seguro das demais vias (com sinalização e redução da velocidade dos motorizados), respeito por parte dos motoristas, local para estacionar a bicicleta. No Brasil não há tradição de planejamento cicloviário e a maioria das pessoas não sabe exatamente quais são as estruturas necessárias, mas elas expressam o desejo de poder deslocar-se em trajetos curtos e médios sem depender de ônibus e sem engrossar os congestionamentos. É claro, ainda persiste o imaginário dominante do "meu carro", mas fica difícil exigir das pessoas que mudem seus hábitos sem o investimento em transporte coletivo e em mobilidade não motorizada.

Perkons - Como está a questão das ciclovias e espaços para bicicleta na cidade? O uso está mais para lazer ou para transporte?

André Soares - A infraestrutura cicloviária está crescendo - algo em torno de 40 km, atualmente. Mas ainda é insuficiente. Além disso, as vias ciclísticas são desconectadas e sem padronização técnica. A cidade ressente a falta de uma política cicloviária efetiva, com metas de curto a longo prazos, apesar dos sinais positivos da atual administração pública nessa direção. Não temos nenhum bicicletário público operando e raros são os estacionamentos para bicicletas nas empresas e no comércio. Desta forma o cidadão se sente pouco estimulado e seguro para usar a bicicleta no dia-a-dia ou em trajetos maiores, que seriam possíveis se houvesse segurança.

Perkons - Então o uso está mais para lazer que transporte?

André Soares - Carecemos de uma pesquisa aprofundada, mas os levantamentos até agora realizados - e a observação da realidade - apontam que cerca de 2% das viagens dos florianopolitanos são realizadas de bicicleta (o que está dentro da média nacional). A maioria realizada por homens jovens para ir ao trabalho, à escola ou para afazeres gerais. O uso para lazer se observa mais nas duas ciclovias da orla da região central e à noite, quando alguns grupos pedalam ao redor da Ilha.

Perkons - Quais as características da cidade e da própria modalidade que dificultam a expansão do uso da bicicleta como meio de transporte?

André Soares - Com raras exceções, a única dificuldade para a mobilidade ciclística nos municípios brasileiros é o tráfego intenso de motoristas ameaçadores em um sistema viário caótico e excludente. Mesmo em Florianópolis, os quatro morros que separam alguns bairros não podem justificar a falta de ciclovias - todos os bairros da cidade são absolutamente planos. A bicicleta, sabe-se, é o meio de transporte mais eficiente em curtas e médias distâncias (aproximadamente 6 km). Com exceção do Ribeirão da Ilha, nenhum bairro em Florianópolis tem diâmetro maior que isto. Percorrendo essa mesma distância, na maioria dos casos, também se pode ir do centro de um bairro até o centro do bairro vizinho. O calor do verão não pode servir de desculpa, pois para a maioria dos trabalhadores isso não faz diferença - e um defensável chuveiro no local de trabalho resolve o problema dos demais. Frio? Basta pedalar 5 minutos e ele se vai (na Europa se pedala sob a neve!). E quando chove? Também por esse motivo é necessário um eficiente transporte coletivo. Ou seja, as características de Florianópolis que dificultam a expansão da bicicleta como meio de transporte são o domínio ideológico e econômico do automóvel particular, operado pelo marketing, pela mídia e pelo empresariado e ainda mantido pelos gestores públicos.

Perkons - Na sua opinião, como deveria ser a integração com os demais modais, em todas as cidades?

André Soares - O transporte coletivo e a mobilidade não motorizada são as modalidades mais econômicas (para o indivíduo e para o erário), eficientes, justas, saudáveis e limpas de prover o deslocamento de pessoas e bens em uma cidade. Portanto, o que se espera é que a opinião pública requisite à gestão pública a instalação de infraestrutura adequada para que pedestres e ciclistas possam acessar de maneira confortável e segura um eficiente sistema de transporte coletivo que opere com prioridade no sistema viário. Vias ciclísticas, bicicletários e calçadas adaptadas para portadores de deficiência permitem a integração intermodal no início ou no final da viagem - e o transporte de bicicletas em ônibus e trens é um avanço muito estimulante. O automóvel também é uma modalidade a ser integrada, seguramente, com a criação de estacionamentos junto aos terminais, mas sua capacidade sempre será limitada devido ao largo espaço ocupado.

Perkons - Quais outros benefícios você destaca em usar a bicicleta como meio de transporte?

André Soares - Entre os vários benefícios amplamente conhecidos, anteriormente mencionados, gostaria de destacar os aspectos da autonomia de deslocamento e do direito à cidade. É altamente significativo, para um pai ou uma mãe, ter a confiança de deixar seu filho ir à escola de bicicleta, sem necessitar levá-lo pessoalmente ou sem depender de serviços privados. Do mesmo modo, cobrir médias distâncias sem ter que esperar o ônibus - ou não precisando pagar sua tarifa - é uma conquista de liberdade, tanto mais valiosa quanto mais se pode repeti-la. Havendo infraestrutura segura, de bicicleta ou mesmo de "tricicleta", pessoas de todas as idades e destrezas podem ir e vir sozinhas, na hora em que bem entenderem, de porta a porta.

Perkons - Pra terminar, o que falta ser feito para difundir mais seu uso em todo Brasil?

André Soares - Uma cidade ciclável é uma cidade de todos, ao contrário de uma cidade que investe a maior parte do dinheiro público nas obras que visam a fluência dos motorizados, pois não é possível que todas as pessoas possuam um carro - assim como não é possível acreditar que um sistema viário comporte cada pessoa no seu carro (ou mesmo a atual média de 1,5 pessoas por carro). A sociedade civil organizada tem feito sua parte para difundir a bicicleta. A paralisia das cidades, a carnificina no trânsito e o efeito estufa já são evidências incontestáveis de que o atual modelo de desenvolvimento está falido. A iniciativa privada somente tem se apropriado do discurso para aumentar suas vendas. Portanto, somente com o poder de Estado a situação poderá ser revertida.

Entrevista concedida ao Newsletter Perkons

Retirada de http://www.perkons.com/?page=noticias&sub=entrevistas&subid=87 em 07/11/09

Última atualização ( Ter, 10 de novembro de 2009 17:27 )